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	<title>Racismo Eclesiástico (depoimento) - Histórico de revisão</title>
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	<updated>2026-05-06T18:38:39Z</updated>
	<subtitle>Histórico de revisões para esta página neste wiki</subtitle>
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		<id>https://homologacao2.wikifavelas.com.br/index.php?title=Racismo_Eclesi%C3%A1stico_(depoimento)&amp;diff=7760&amp;oldid=prev</id>
		<title>Gabriel: Criou página com &#039; Por: Padre&amp;nbsp;[https://www.facebook.com/gege.natalino.98?__tn__=,dK-R-R&amp;eid=ARCNQvn3eaEYfLz_sGogxQs9DzKP9B38M-c-xsG2h8OsK7SNpNHdOHTJJGKMBmRQBXewI-rhA14Bmjfi&amp;fref=mentions G...&#039;</title>
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		<updated>2020-06-16T03:00:00Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Criou página com &amp;#039; Por: Padre [https://www.facebook.com/gege.natalino.98?__tn__=,dK-R-R&amp;amp;eid=ARCNQvn3eaEYfLz_sGogxQs9DzKP9B38M-c-xsG2h8OsK7SNpNHdOHTJJGKMBmRQBXewI-rhA14Bmjfi&amp;amp;fref=mentions G...&amp;#039;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt;Página nova&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Por: Padre&amp;amp;nbsp;[https://www.facebook.com/gege.natalino.98?__tn__=,dK-R-R&amp;amp;eid=ARCNQvn3eaEYfLz_sGogxQs9DzKP9B38M-c-xsG2h8OsK7SNpNHdOHTJJGKMBmRQBXewI-rhA14Bmjfi&amp;amp;fref=mentions Gegê].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
GEORGE FLOYD E O RACISMO ECLESIÁSTICO: QUANDO O CHICOTE ESTALA NA BATINA&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Quando um padre negro não consegue respirar)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
= Depoimento =&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este texto é a narrativa de um padre negro numa Igreja estruturalmente branca e racista. Papa Francisco ao se posicionar diante do estrangulamento de George Floyd pelo policial branco afirma: &amp;quot;não se pode fechar os olhos ou tolerar o RACISMO&amp;quot;. As palavras do bispo de Roma fundamentam minha fala, o meu protesto antirracista. Ouvindo e seguindo o Papa pode-se dizer que, diante do RACISMO, a Lei suprema é: &amp;quot;não fechar os olhos ou tolerar&amp;quot;. Esse posicionamento exige, em especial de cada católico, o assumir, em nome do Evangelho libertador, a bandeira antirracista. Conforme adverte Angela Davis, &amp;quot;não basta não ser racista, é preciso ser antirracista&amp;quot;. Agora, como ser antirracista numa Igreja racista? Mas, a Igreja católica é racista? Respondo sem evasiva: SIM! E, historicamente no Brasil, foi no passado e é no presente amálgama de todo processo colonizador escravocrata. A obra O que é racismo estrutural? de Silvio de Almeida oferece fundamental instrumento de compreensão e análise do racismo para além dos casos isolados ou interpessoais. Para o autor &amp;quot;todo racismo é estrutural&amp;quot;. Dessa feita, o racismo é o modus operandi da sociedade. E a Igreja não foge a essa lógica. A filósofa Djamila Ribeiro na indispensável obra Pequeno manual antirracista sublinha que &amp;quot;falar sobre racismo no Brasil é, sobretudo, fazer um debate estrutural&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É a partir dessa compreensão que falo em &amp;quot;racismo eclesiástico&amp;quot;, isto é, o racismo que é gestado e estruturado na ambiência hierárquica da Igreja - &amp;quot;racismo institucional&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No dia 18 deste mês de junho completo 26 anos de padre. Assumo, diante do corpo negro de George Floyd e dos sem número de corpos negros tombados pelo racismo no Brasil (Ágatha, João Pedro, Miguel, Marielle...), o compromisso de falar do racismo eclesiástico a partir do meu corpo negro. A propósito, louvo o histórico programa Em Pauta do canal GloboNews (03/06), que no contexto do assassinato de George Floyd, abordou o racismo no Brasil a partir das trajetórias das jornalistas, isto é, a partir de seus corpos em movências insubmissas. Por que a Igreja não segue esse exemplo e coloca com sinceridade o racismo em pauta?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Da minha parte, começo a falar, a partir das marcas de meu corpo. Meu corpo é o lugar do discurso. Falo, pois, do racismo da e na Igreja sob cujo joelho branco eclesiástico impede padre preto de respirar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira partilha que faço desse &amp;quot;estrangulamento&amp;quot; sistêmico-eclesial refere-se ao âmbito educacional. Desde que entrei no caminho de formação para o sacerdócio até o presente momento, ingressei em 8 espaços acadêmicos de orientação católica: (01) Faculdade Eclesiástica de Filosofia, (02) Instituto Superior de Teologia João Paulo II, (03) PUC-RJ - Mestrado em Teologia, (04) Universidade Santa Úrsula (início do curso de psicologia), (05) PUC-RJ - Psicologia, (06) IJOPA - Convalidação/Licenciatura em Filosofia, (07) Universidade Católica de Brasília (Virtual) - Pós em Filosofia (TCC inconcluso) e (08) PUC- SP - Doutorado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em nenhum desses 8 espaços supracitados tive uma professora ou professor negro. Repito, nenhum sequer. E nem vou considerar agora a ocultação das temáticas sobre o negro e o racismo nas grades curriculares. Em geral, todo o meu processo de (de)formação acadêmica se deu sob a batuta do supremacismo branco e suas epistemologias colonialistas. No que se refere especificamente à formação para o sacerdócio no Seminário Arquidiocesano São José, sem dúvida, fui (de)formado por bispos brancos, reitores brancos, diretores espirituais brancos, professoras e professores brancos, livros e autores brancos; tudo branco para forjar uma Igreja branca à serviço de um mundo branco.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por que não nos é apresentada, por exemplo, a potente obra Teologia Negra de Ronilso Pacheco? O que há de negro na formação presbiteral?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por minha conta e risco, transgressoramente, cursei pós-graduação em História da África e do Negro no Brasil na Universidade Cândido Mendes. Foi um oásis no deserto da branquitude colonial esclesiástica. A propósito, qualquer diocese do Brasil, como a do Rio de Janeiro, erigida em território que contou com grande ingresso da população negra escravizada que não abraçou (e nem abraça) a Lei 10.639 - que faz obrigatório o ensino sobre a história da África e do Negro no Brasil - deixa escancarado, ipso facto, o racismo que promove. Não deveria ser a Igreja, em virtude de seu passado colonial escravocrata, a primeira a abraçar a Lei 10.639? Levando à sério as palavras de Papa Francisco, como &amp;quot;fechar os olhos ou tolerar&amp;quot; essa situação de racismo mascarado?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de formação para a vida clerical (bispo, padre e diácono) implica, sob variadas formas, assumir a branquitude como paradigma. O clero é branco. A Igreja é branca!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Assumir a negritude, no contexto esclesiástico, é remar contra a maré e não raro, como no meu caso, transitar/capoeirar por entre arames farpados. Meu pai Jerônymo (falecido este ano) e meu irmão mais velho, Lázaro (falecido ano passado), certamente, morreram achando que como padre minha vida estivesse mais livre do racismo. Ledo engano! Quero, pois, que meus sobrinhos adolescentes, Mariana e José Augusto, saibam que o racismo esclesiástico me conduziu ao adoecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O racismo adoece e mata em qualquer lugar. Sou, pois, um sobrevivente do racismo estrutural que constrói a sociedade e também o sistema eclesiástico. A partir do meu corpo ferido pelos arames farpados digo sem evasiva: para o sistema eclesiástico de brancura vidas negras não importam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No próximo escrito vou tratar sobre os 10 anos que estive à frente da paróquia Nossa Senhora de Fátima (Paciência/RJ) sem obter o título de pároco. Ser pároco é ocupar um lugar de poder no sistema eclesial. Só me tornei pároco, na paróquia que hoje lidero, porque reivindiquei a função junto ao então arcebispo metropolitano, Dom Euzébio. Tive que &amp;quot;brigar&amp;quot; para obter o que meus irmãos de ofício, mormente, obtém naturalmente e num tempo reduzido de vida sacerdotal. Como ler essa ferida que sangra em meu corpo desconsiderando o arame farpado do racismo social e eclesiástico?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estou em isolamento porque fui infectado pelo novo coronavírus. Pelo que tudo indica, não morrerei de Covid, graças a Deus; mas nada, nem na sociedade e nem na Igreja, me garante que não morrerei de racismo - vírus, quase sempre &amp;quot;invisível&amp;quot;, disseminado em toda sociedade e também na Igreja.&amp;lt;br/&amp;gt; O racismo Mata George Floyd, mata Ágatha, João Pedro, Miguel, Marielle e a lista segue ad infinitum. Eu já morri várias vezes... Meu pai e meu irmão morreram muitas vezes antes da morte derradeira. Adverte Conceição Evaristo, a mater Generosa das Letras Pretas: &amp;quot;A terra está coberta de valas e a qualquer descuido da vida a morte é certa. A bala não erra o alvo...&amp;quot;. E lembra ainda Conceição: &amp;quot;A certidão de óbito, os antigos sabem, veio lavrada desde os negreiros&amp;quot;. E isso é triste, isso é trágico; mas isso é fato!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Transitar como homem negro em 8 espaços acadêmicos de orientação católica sem poder me reconhecer em nenhum professor ou professora é sim joelho branco em meu pescoço preto e chicotada colonial na pupila dos meus olhos. A invisibilidade do negro é uma das facetas mais cruéis do racismo brasileiro. E essa ocultação sistemática a Igreja também promove sem constrangimento ou culpa.&amp;lt;br/&amp;gt; Quantos párocos negros tem as paróquias da zona sul ou da Barra da Tijuca? O chicote que estala na batina, estala na pupila.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outra partilha, no contexto da celebração dos meus 26 anos de padre, vou tratar da violência mais racista inscrita em meu corpo na ambiência eclesiástica. Um bispo branco ajoelhou-se em meu pescoço e, seguindo o protocolo escravocrata, impediu-me de ingressar no corpo docente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É como se dissesse: lugar de negro é limpando o banheiro da faculdade ou servindo café.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desde que nasci em 1967 (e não era tempo de pandemia) luto contra o isolamento social; desde de que pisei no seminário até o presente momento, luto contra o isolamento eclesial.&amp;lt;br/&amp;gt; Vidas negras importam?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora o sistema eclesiástico, na prédica, sustente que todos somos iguais em Cristo, na prática constrói esquemas de castas segundo os quais uns são tratados como mais humanos que outros. Esse é um legado colonial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há clérigos que vivem no &amp;quot;paraíso eclesiástico&amp;quot; e gozam de todas as benesses e privilégios que o mundo branco escravocrata pode ofertar a um mortal. Há outros que vivem no &amp;quot;purgatório&amp;quot; e movidos pela lei do carreirismo lutam, despudoradamente, pela seleção eclesial das espécies. Outros há que vivem no &amp;quot;inferno eclesiástico&amp;quot;. Esse é o meu lugar! E é desse lugar-senzala que nasce minha &amp;quot;escrevivência&amp;quot;. E, no rastro de Conceição Evaristo, minha escrita preta enseja, confessadamente, &amp;quot;acordar a casa grande de seus sonos injustos&amp;quot;. O racismo esclesiástico promove um contingente presbiteral vulnerabilizado; o racismo esclesiástico produz asfixia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Escreve com sensibilidade engajada a teóloga Maria Clara Bingemer (PUC-RJ): &amp;quot;A forma como Floyd foi assassinado é reflexo direto de uma segregação branca, que mergulha suas raízes na escravidão (...). A frieza com que o policial branco fincou seu joelho sobre o pescoço da vítima, com as mãos no bolso, demarca a posição da supremacia branca...esmagando a função mais vital do outro enquanto ser humano: sua possibilidade de respirar&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E Nelson Rodrigues, oportunamente, reflete em posição antirracista: &amp;quot;Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite&amp;quot;. E diz ainda Nelson Rodrigues: &amp;quot;Acho o branco brasileiro um dos mais racistas do mundo&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E é pela violência fria e inclemente desse racismo mascarado brasileiro, como incansavelmente denunciou Abdias Nascimento, que o chicote também estala na batina do padre negro. Com ou sem remorso, o poder eclesiástico, tal como meu corpo o vivencia e narra, é, física e/ou simbolicamente, joelhos brancos em pescoço negro. Por isso, meu corpo assumidamente preto grita no interior de uma Igreja estruturalmente branca: &amp;quot;Eu não consigo respirar&amp;quot;!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas a história do povo negro não termina aí. É preciso fazer justiça ao legado de resistência, enfrentamento e insurgência de nossos antepassados. Nossa história, desde Áfricas, passando pelos tumbeiros e os mais diversificados processos de escravização, jamais foi a história de corpos passivos estrangulados silenciosamente no chão colonial. Nenhum sistema escravocrata, inclusive o eclesiástico, bem como nenhum joelho de policial branco ou de qualquer poder genocida do Estado, jamais vai compreender que mesmo com o pescoço esfolado sempre restará algo de insurgente na boca preta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Crítica da razão negra, Achille Mbembe nos ajuda saber que em cada negra ou negro transformado em &amp;quot;farrapo humano&amp;quot; pela colonialidade jamais restará somente os órgãos esticados no chão. Diz Mbembe: &amp;quot;resta também a fala, último sopro de uma humanidade devastada, mas que, até às portas da morte, se recusará a ser reduzida a um monte de carne... mesmo cortado em dois, o supliciado continua a proferir uma recusa. Não para de repetir a mesma frase: &amp;quot;&amp;#039;Não quero morrer desta morte&amp;#039;&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Category:Racismo]][[Category:Temática - Religião]][[Category:Temática - Relações Étnico-Raciais]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Gabriel</name></author>
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