Drogas na Cidade de Deus: mudanças entre as edições
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= <span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">As guerras criadas pela “Guerra às Drogas”</font></font></font></span> = | = <span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">As guerras criadas pela “Guerra às Drogas”</font></font></font></span> = | ||
<span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">Nos anos 1960, o crescimento da criminalidade na cidade aliada à máxima quanto a impossibilidade de recuperação de certos “bandidos”, aliado ao regime instalado após o Golpe de 1964, cria a ambiência necessária à origem dos grupos de extermínios, também conhecidos como esquadrões da morte e, mais recentemente, por milícias. O ambiente político repressivo da Ditadura Militar justifica atividades de extermínio do inimigo irrecuperável, seja ele vadio, bandido, assassino, viciado, traficante, subversivo, comunista, maconheiro. Apesar desse vasto leque aparente de alvos, a corrupção entre os poderes é o que permite aos grupos de extermínio tirarem vantagens de contravenções, como a prostituição, o jogo do bicho, e ações criminosas, como assaltos, homicídios e tráfico de drogas e de armas. Assim, o processo de sedimentação do tráfico de drogas nas favelas passa pela ação seletiva de organizações criminosas, que lucram com a cobertura às atividades ilegais e eliminam os adversários quando necessário. Em 1979, a Falange Vermelha nasce no presídio da Ilha Grande, a facção criminosa criada pelos próprios criminosos ligados ao tráfico de drogas. Vê-se que esse modelo de organização não era devedor apenas das trocas entre presos políticos e bandidos comuns, mas o desdobramento dessa forma associativa voltada ao crime e à corrupção alimentada pelo Estado.</font></font></font></span> | <span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">Nos anos 1960, o crescimento da criminalidade na cidade aliada à máxima quanto a impossibilidade de recuperação de certos “bandidos”, aliado ao regime instalado após o Golpe de 1964, cria a ambiência necessária à origem dos grupos de extermínios, também conhecidos como esquadrões da morte e, mais recentemente, por milícias. O ambiente político repressivo da Ditadura Militar justifica atividades de extermínio do inimigo irrecuperável, seja ele vadio, bandido, assassino, viciado, traficante, subversivo, comunista, maconheiro. Apesar desse vasto leque aparente de alvos, a corrupção entre os poderes é o que permite aos grupos de extermínio tirarem vantagens de contravenções, como a prostituição, o jogo do bicho, e ações criminosas, como assaltos, homicídios e tráfico de drogas e de armas. Assim, o processo de sedimentação do tráfico de drogas nas favelas passa pela ação seletiva de organizações criminosas, que lucram com a cobertura às atividades ilegais e eliminam os adversários quando necessário. Em 1979, a Falange Vermelha nasce no presídio da Ilha Grande, a facção criminosa criada pelos próprios criminosos ligados ao tráfico de drogas. Vê-se que esse modelo de organização não era devedor apenas das trocas entre presos políticos e bandidos comuns, mas o desdobramento dessa forma associativa voltada ao crime e à corrupção alimentada pelo Estado.</font></font></font></span> | ||
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<span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">Os conflitos se realizam, cada vez mais, com o uso de armamento pesado, o que torna o tráfico de armas tão expressivo quanto o de drogas. A população local vê crescer e assumir importância desmedida as atividades ligadas à venda de drogas, assim como a interferência dos assuntos ligados à economia dessa atividade no cotidiano da comunidade. Confrontos entre polícia-traficantes e traficantes-traficantes criam rotinas de toques de recolher, tiroteios repentinos, profusão de mortes, fragmentação do espaço de circulação na comunidade em função da delimitação territorial estabelecida pelos donos das bocas de fumo, em uma palavra, desestabilizam as rotinas da população local, desde então atravessadas por insegurança, incertezas, medo e terror. A violência que grassava pelo país naqueles anos encontra uma forma precisa de manifestação local, que será tomada pela mídia como especificidade exclusiva da Cidade de Deus, consubstanciada na máxima de comunidade “mais violenta do país”.</font></font></font></span> | <span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">Os conflitos se realizam, cada vez mais, com o uso de armamento pesado, o que torna o tráfico de armas tão expressivo quanto o de drogas. A população local vê crescer e assumir importância desmedida as atividades ligadas à venda de drogas, assim como a interferência dos assuntos ligados à economia dessa atividade no cotidiano da comunidade. Confrontos entre polícia-traficantes e traficantes-traficantes criam rotinas de toques de recolher, tiroteios repentinos, profusão de mortes, fragmentação do espaço de circulação na comunidade em função da delimitação territorial estabelecida pelos donos das bocas de fumo, em uma palavra, desestabilizam as rotinas da população local, desde então atravessadas por insegurança, incertezas, medo e terror. A violência que grassava pelo país naqueles anos encontra uma forma precisa de manifestação local, que será tomada pela mídia como especificidade exclusiva da Cidade de Deus, consubstanciada na máxima de comunidade “mais violenta do país”.</font></font></font></span> | ||
<span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">Admitir ser morador da Cidade de Deus poderia significar o fim de uma oportunidade de emprego ou da possibilidade de encontrar aceitação fora da comunidade, | <span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">Admitir ser morador da Cidade de Deus poderia significar o fim de uma oportunidade de emprego ou da possibilidade de encontrar aceitação fora da comunidade, em função dos dos estigmas e preconceitos em curso na cidade. Para isso, contribui, involuntariamente, a pesquisa realizada ao longo das décadas de 1980 e 1990, conduzidas pela antropóloga Alba Zaluar, que culminaram com a publicação do livro </font></font></font><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">''Cidade de Deus''</font></font></font><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">, de Paulo Lins, em 1997, e com o filme homônimo em 2002, quando foram trazidos a público aspectos da violência cotidiana dos grupos ligados às atividades do tráfico de drogas. Essas obras deram ensejo às críticas que aludiam a representações metonímicas ao reduzirem as diversas experiências de existência e modos de vida das populações locais às definidas pelo recorte metodológico orientador da pesquisa. De denúncia sobre as condições de vida local dos grupos envolvidos no tráfico de drogas, esses trabalhos foram tomados como expressões totalizante dos modos de existência na comunidade, gerando incompreensões e reações diversas entre os moradores. Esse dilema, no entanto, ocultava outro: ao se atribuir às obras representação fidedigna da população local, por postular a violência como </font></font></font><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">''modus vivendi ''</font></font></font><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">próprio à totalidade dos moradores da Cidade de Deus, promovia-se o apagamento, por um lado, do quão arraigada era a violência na cultura nacional e não apenas em Cidade de Deus, deixando escapar seus lastros e a responsabilidade do Estado e da sociedade pelo que ali ocorria e, por outro, da riqueza da pluralidade de manifestações e experiências de vida que ali pululavam, juntamente com as diversas formas de organizações político-culturais - configurações essas que estavam para além do recorte da pesquisa do livro.</font></font></font></span> | ||
<span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">Outras guerras pelo controle do tráfico de drogas | <span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">Outras guerras pelo controle do tráfico de drogas, travadas em outras comunidades do Rio de Janeiro, horizontalizaram essas realidades. A todas coube e cabe ainda reação aguerrida no intuito de não se deixar cooptar pelo reducionismo das representações da violência, da criminização e do racismo, evidenciando as armadilhas dos usos políticos-ideológicos das representações sociais e das lutas que articulam as construções identitárias dessas populações no conjunto da cidade do Rio de Janeiro. O episódio é paradigmático do jogo de forças que intenta demarcar esses territórios como seara do vale-tudo, justificando as ações violentas das forças policiais, o “abate” dos bandidos, a indiferença - e mesmo anuência (de setores) - da sociedade.</font></font></font></span> | ||
<span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">O tráfico permanece em Cidade de Deus e a comunidade continua existindo em sua multiplicidade para além disso. A visão idílica do traficante como provedor das necessidades locais, há muito cedeu lugar ao reconhecimento do tráfico como forma de opressão e como expressão da ausência de interesse do Estado | <span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">O tráfico permanece em Cidade de Deus e a comunidade continua existindo em sua multiplicidade e diversidade para além disso. A visão idílica do traficante como provedor das necessidades locais, há muito cedeu lugar ao reconhecimento do tráfico como forma de opressão e como expressão da ausência de interesse do Estado em alterar esse estado de coisas. Em que pese o fato de os donos da boca de fumo serem, em geral, cria local, hoje há poucas ilusões sobre o poder implacável e inclemente desses chefes. O alinhamento às grandes organizações do crime organizado demonstra esse fato, pois, como qualquer escola, as "pratas da casa" têm sido cooptadas a servirem aos interesses corporativo do narcotráfico. A despeito disso, as táticas do tráfico de drogas permanecem imiscuídas às práticas de sociabilidade locais. Pablo das Oliveiras ao descrever o papel do mutirão da laje e a função social da laje, abre à possibilidade de compreender como a laje é utilizada pelos traficantes como espaço de vigilância, como posto avançado de “olheiros” e “fogueteiros” que avisam da chegada da polícia e da presença de estranho à localidade.</font></font></font></span> | ||
<span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">De todo modo, as questões relativas às drogas na Cidade de Deus, como de resto, nas outras regiões do país, não são as drogas ilícitas as únicas a trazerem problemas à população local. As drogas lícitas, quase sempre minimizadas quanto à capacidade de gerar riscos e danos frente às drogas ilícitas, também são geradoras de grandes transtornos à população local. Os altos índices de alcoolismo e de suas comorbidades, o uso excessivo de medicamentos controlados como estratégia da população para suportar o cotidiano implacável e violento.</font></font></font></span> | <span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">De todo modo, as questões relativas às drogas na Cidade de Deus, como de resto, nas outras regiões do país, não são as drogas ilícitas as únicas a trazerem problemas à população local. As drogas lícitas, quase sempre minimizadas quanto à capacidade de gerar riscos e danos frente às drogas ilícitas, também são geradoras de grandes transtornos à população local. Os altos índices de alcoolismo e de suas comorbidades, o uso excessivo de medicamentos controlados como estratégia da população para suportar o cotidiano implacável e violento.</font></font></font></span> | ||
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= <span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">Considerações Gerais</font></font></font></span> = | = <span style="line-height:150%"><font face="Times New Roman, serif"><font size="3"><font style="font-size: 12pt">Considerações Gerais</font></font></font></span> = | ||
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