Morro do Turano: mudanças entre as edições

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<p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="line-height:normal"><span style="color:black">Morro do Turano é uma localidade entre os bairros da Tijuca e do Rio Comprido, na Zona Norte da capital fluminense, onde existe uma favela. Esta favela localiza-se próximo a outras, como o Morro de São Carlos, no Estácio, Morro da Mineira e o Morro da Coroa, no Catumbi, Morro do Querosene, no Rio Comprido e Comunidade da Chacrinha, na Tijuca.</span></span></span></span></p> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="line-height:normal">Hoje, o conjunto de favelas é conhecido como Complexo do Turano e atualmente é formado por sete&nbsp;favelas, sendo duas delas localizadas no bairro da Tijuca, como o Morro da Liberdade e o Morro da Chacrinha, e no bairro do Rio Comprido, localizam-se Matinha, Pantanal, Rodo, Bispo e o Sumaré. O Censo Demográfico 2010, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), diz, que a população total do Morro do Turano é de 10.569 pessoas. Mas, até abril de 2013, o Centro Municipal de Saúde Turano informa que havia sido mapeado pelo Programa Saúde da Família, do Ministério da Saúde, 13.200 moradores no local.</span></span></span></p> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="line-height:normal"><span style="color:black">Em 30 de setembro de 2010 a comunidade passou a ser atendida pela 12° UPP.</span></span></span></span></p>  
<p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="line-height:normal"><span style="color:black">Morro do Turano é uma localidade entre os bairros da Tijuca e do Rio Comprido, na Zona Norte da capital fluminense, onde existe uma favela. Esta favela localiza-se próximo a outras, como o Morro de São Carlos, no Estácio, Morro da Mineira e o Morro da Coroa, no Catumbi, Morro do Querosene, no Rio Comprido e Comunidade da Chacrinha, na Tijuca.</span></span></span></span></p> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="line-height:normal">Hoje, o conjunto de favelas é conhecido como Complexo do Turano e atualmente é formado por sete&nbsp;favelas, sendo duas delas localizadas no bairro da Tijuca, como o Morro da Liberdade e o Morro da Chacrinha, e no bairro do Rio Comprido, localizam-se Matinha, Pantanal, Rodo, Bispo e o Sumaré. O Censo Demográfico 2010, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), diz, que a população total do Morro do Turano é de 10.569 pessoas. Mas, até abril de 2013, o Centro Municipal de Saúde Turano informa que havia sido mapeado pelo Programa Saúde da Família, do Ministério da Saúde, 13.200 moradores no local.</span></span></span></p> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="line-height:normal"><span style="color:black">Em 30 de setembro de 2010 a comunidade passou a ser atendida pela 12° UPP.</span></span></span></span></p>  
= História =
= História =
<p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="line-height:normal"><span style="color:black">Grande parte dos morros da Tijuca faziam parte de antigas fazendas de café da Zona Norte. Alguns foram batizados com o mesmo sobrenome da família proprietária das terras. Um deles foi o Morro do Turano, em homenagem a Emilio Turano, imigrante italiano que comprou a posse do morro de uma baronesa no ano 1928, com licença da Mitra Episcopal. Na época foi explorada uma pedreira e iniciou-se a construção do casario na sua base. Há duas histórias sobre a formação da favela no local. A primeira diz que a família perdeu a posse das terras com o advento da Guerra Mundial e quando voltou ao Brasil a favela já estava instaurada e não conseguiu mais retomar o controle do espaço.&nbsp;[[File:Turano 02 - Tanque.jpg|frame|center|500px|Crianças posam na localidade conhecida como Tanque. O lugar tem esse nome pois, no passado, mulheres lavavam roupas dos patrões das casas onde trabalhavam no asfalto em tanques coletivos que ficavam na região]]</span></span></span></span></p> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="line-height:normal"><span style="color:black">A segunda versão diz que Emílio Turano, dono da região, alugava o espaço que se auto intitulara proprietário, mas com a alta valoração do solo ele passara a cobrar aluguéis absurdamente altos, com aumentos muito grandes. Assim, começaram a surgir os atritos entre moradores e supostos donos de terras na região. A tensão explodiu quando ele tentou aumentar de uma só vez um percentual muito alto de todas as casas, num nível considerado excessivo. Muitos moradores não questionavam a cobrança de aluguéis em si, mas rejeitaram o aumento que comprometia o&nbsp;seu orçamento mais fundamental e consequentemente inviabilizada sua permanência no local. Segundo uma pesquisa feita por Gomes (2018), frente a isso, diversos moradores decidiram coletivamente suspender o pagamento de aluguéis e começaram a questionar a propriedade daquelas terras, o que ocasionou uma série de violências e arbitrariedades perpetradas por Turano. Além desses movimentos de articulação interna, os moradores estabeleceram alianças com advogados, jornais e partidos políticos, principalmente com o PCB.</span></span></span></span></p> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Logo depois, com a saída de Vargas da presidência, em 1945, há uma ascenção popular das ideias de esquerda na cidade e o debate de habitação popular ganha mais força e militantes comunistas se aproximam dos moradores de favelas a partir dos Comitês Populares Democráticos (CPDs), inclusive do Turano. Segundo Gomes (2018):</span></span></p> <blockquote><p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify">Esses comitês atuaram oferecendo apoio e incentivando a formação de subcomitês, ligados aos comitês dos bairros, responsáveis por gerar visibilidade às precárias condições de vida dos favelados, suscitando o debate de seus problemas mais urgentes em esferas públicas, exercendo pressão para fossem incorporados na agenda dos governantes. Mas não se limitavam a isso. Os comitês se propunham também a prestar assistência social básica (serviços de medicina preventiva, cursos de alfabetização, etc.) fortalecer ações coletivas (que, em grande medida, sempre foram levadas a cabo nessas localidades) na resolução de problemas mais imediatos e a articular a mediação entre as demandas da população local e as instituições públicas no que acreditavam ser obrigações do Estado, fornecendo, por exemplo, apoio jurídico nas batalhas judiciais que eventualmente os moradores se envolviam e apoio técnico na formulação de documentação reivindicatória destinada aos governantes.</p> </blockquote> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify">As reivindicações que se viabilizaram a partir do fortalecimento do movimento associativista local foram muito importantes para o estabelecimento da população não apenas do Turano mas de diversas localidades da cidade, mas não de imediato. As primeiras respostas que os moradores tiveram foi o aumento da violência, autoritarismo e agressividade nas favelas. Ainda que Turano tivesse perdido na justiça o pagamento de alugueis no Morro do Salgueiro, vizinho do Turano, executou práticas de ameaças, espancamentos, destruição de moradias e muitas outras violências na tentativa de recuperar o controle do local, em ações similares ao que as milicias hoje exercem no Rio de Janeiro. A midia se dividiu muito na cobertura do caso - de acordo com o posicionamento político, defendia os moradores ou Turano; já que havia uma forte ligação entre os moradores e os comunistas, a sua defesa não era uniforme na sociedade.&nbsp;</p> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify">[[File:Turano 03.jpg|frame|center|500px|Na localidade conhecida como Tanque, ainda existem algumas casas feitas de madeira ou chapas de metal. A precariedade das construções gera perigo aos moradores, por conta do risco de desabamento]]</p>  
<p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="line-height:normal"><span style="color:black">Grande parte dos morros da Tijuca faziam parte de antigas fazendas de café da Zona Norte. Alguns foram batizados com o mesmo sobrenome da família proprietária das terras. Um deles foi o Morro do Turano, em homenagem a Emilio Turano, imigrante italiano que comprou a posse do morro de uma baronesa no ano 1928, com licença da Mitra Episcopal. Na época foi explorada uma pedreira e iniciou-se a construção do casario na sua base. Há duas histórias sobre a formação da favela no local. A primeira diz que a família perdeu a posse das terras com o advento da Guerra Mundial e quando voltou ao Brasil a favela já estava instaurada e não conseguiu mais retomar o controle do espaço.&nbsp;[[File:Turano 02 - Tanque.jpg|thumb|center|500px|Crianças posam na localidade conhecida como Tanque. O lugar tem esse nome pois, no passado, mulheres lavavam roupas dos patrões das casas onde trabalhavam no asfalto em tanques coletivos que ficavam na região]]</span></span></span></span></p> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="line-height:normal"><span style="color:black">A segunda versão diz que Emílio Turano, dono da região, alugava o espaço que se auto intitulara proprietário, mas com a alta valoração do solo ele passara a cobrar aluguéis absurdamente altos, com aumentos muito grandes. Assim, começaram a surgir os atritos entre moradores e supostos donos de terras na região. A tensão explodiu quando ele tentou aumentar de uma só vez um percentual muito alto de todas as casas, num nível considerado excessivo. Muitos moradores não questionavam a cobrança de aluguéis em si, mas rejeitaram o aumento que comprometia o&nbsp;seu orçamento mais fundamental e consequentemente inviabilizada sua permanência no local. Segundo uma pesquisa feita por Gomes (2018), frente a isso, diversos moradores decidiram coletivamente suspender o pagamento de aluguéis e começaram a questionar a propriedade daquelas terras, o que ocasionou uma série de violências e arbitrariedades perpetradas por Turano. Além desses movimentos de articulação interna, os moradores estabeleceram alianças com advogados, jornais e partidos políticos, principalmente com o PCB.</span></span></span></span></p> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify"><span style="font-size:small;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Logo depois, com a saída de Vargas da presidência, em 1945, há uma ascenção popular das ideias de esquerda na cidade e o debate de habitação popular ganha mais força e militantes comunistas se aproximam dos moradores de favelas a partir dos Comitês Populares Democráticos (CPDs), inclusive do Turano. Segundo Gomes (2018):</span></span></p> <blockquote><p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify">Esses comitês atuaram oferecendo apoio e incentivando a formação de subcomitês, ligados aos comitês dos bairros, responsáveis por gerar visibilidade às precárias condições de vida dos favelados, suscitando o debate de seus problemas mais urgentes em esferas públicas, exercendo pressão para fossem incorporados na agenda dos governantes. Mas não se limitavam a isso. Os comitês se propunham também a prestar assistência social básica (serviços de medicina preventiva, cursos de alfabetização, etc.) fortalecer ações coletivas (que, em grande medida, sempre foram levadas a cabo nessas localidades) na resolução de problemas mais imediatos e a articular a mediação entre as demandas da população local e as instituições públicas no que acreditavam ser obrigações do Estado, fornecendo, por exemplo, apoio jurídico nas batalhas judiciais que eventualmente os moradores se envolviam e apoio técnico na formulação de documentação reivindicatória destinada aos governantes.</p> </blockquote> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify">As reivindicações que se viabilizaram a partir do fortalecimento do movimento associativista local foram muito importantes para o estabelecimento da população não apenas do Turano mas de diversas localidades da cidade, mas não de imediato. As primeiras respostas que os moradores tiveram foi o aumento da violência, autoritarismo e agressividade nas favelas. Ainda que Turano tivesse perdido na justiça o pagamento de alugueis no Morro do Salgueiro, vizinho do Turano, executou práticas de ameaças, espancamentos, destruição de moradias e muitas outras violências na tentativa de recuperar o controle do local, em ações similares ao que as milicias hoje exercem no Rio de Janeiro. A midia se dividiu muito na cobertura do caso - de acordo com o posicionamento político, defendia os moradores ou Turano; já que havia uma forte ligação entre os moradores e os comunistas, a sua defesa não era uniforme na sociedade.&nbsp;</p> <p style="margin-bottom:.0001pt; text-align:justify">[[File:Turano 03.jpg|frame|center|500px|Na localidade conhecida como Tanque, ainda existem algumas casas feitas de madeira ou chapas de metal. A precariedade das construções gera perigo aos moradores, por conta do risco de desabamento]]</p>  
== Morro da Liberdade ==
== Morro da Liberdade ==
<p style="text-align: justify;">Uma parte importante da disputa pela propriedade do terreno passou pela disputa do seu nome. Uma parcela dos moradores, ainda nos anos 1940, tentou mudar o nome do Morro do Turano para Morro da LIberdade, tentando afastar do imaginário social a propriedade do espaço vinculada ao italiano. Apesar da vitória dos moradores frente ao italiano, ao longo das décadas o nome de Turano prevaleceu como designação mais difundida dessa comunidade, que se tornou um complexo de favelas. Contudo, a localidade conhecida como Morro da Liberdade (justamente a área que concentrava a maior parte casas naquela época) constitui uma das sete favelas que compõe de forma contígua a área do complexo do Turano. Como apresenta Gomes (2018), ao narrar o episódio, a disputa também se estabeleceu no plano simbólico, onde se disputou a identidade e a memória em relação a esse espaço e que se refletiu na imprensa, uma vez que nas décadas imediatamente posteriores encontramos ambas nomenclaturas nos jornais ao referirem-se a este local.</p> <p style="text-align: justify;">[[File:Turano 04.jpg|frame|center|500px|Vista privilegiada a partir da Divisa, caminho por dentro da mata que separa o Turano do Morro do Salgueiro. Dali dá para enxergar o bairro da Tijuca e parte dos municípios de Duque de Caxias e Niterói]]</p>  
<p style="text-align: justify;">Uma parte importante da disputa pela propriedade do terreno passou pela disputa do seu nome. Uma parcela dos moradores, ainda nos anos 1940, tentou mudar o nome do Morro do Turano para Morro da LIberdade, tentando afastar do imaginário social a propriedade do espaço vinculada ao italiano. Apesar da vitória dos moradores frente ao italiano, ao longo das décadas o nome de Turano prevaleceu como designação mais difundida dessa comunidade, que se tornou um complexo de favelas. Contudo, a localidade conhecida como Morro da Liberdade (justamente a área que concentrava a maior parte casas naquela época) constitui uma das sete favelas que compõe de forma contígua a área do complexo do Turano. Como apresenta Gomes (2018), ao narrar o episódio, a disputa também se estabeleceu no plano simbólico, onde se disputou a identidade e a memória em relação a esse espaço e que se refletiu na imprensa, uma vez que nas décadas imediatamente posteriores encontramos ambas nomenclaturas nos jornais ao referirem-se a este local.</p> <p style="text-align: justify;">[[File:Turano 04.jpg|frame|center|500px|Vista privilegiada a partir da Divisa, caminho por dentro da mata que separa o Turano do Morro do Salgueiro. Dali dá para enxergar o bairro da Tijuca e parte dos municípios de Duque de Caxias e Niterói]]</p>