Complexos de Favelas: mudanças entre as edições
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O primeiro deles está situado nos primeiros anos da década de 1980. Período marcado, no governo municipal, pelo desenvolvimento do Cadastro de Favelas (IPLANRIO, 1983). Publicado em 1983, os trabalhos de pesquisa para sua construção começaram em 1980/81 e as informações produzidas neste processo alimentaram uma séries de ações governamentais dos três níveis de governo: municipal, estadual e federal. É no seio dos estudos para construção do Cadastro de Favelas que a noção de aglomerados e complexos de favelas se consolida. | O primeiro deles está situado nos primeiros anos da década de 1980. Período marcado, no governo municipal, pelo desenvolvimento do Cadastro de Favelas (IPLANRIO, 1983). Publicado em 1983, os trabalhos de pesquisa para sua construção começaram em 1980/81 e as informações produzidas neste processo alimentaram uma séries de ações governamentais dos três níveis de governo: municipal, estadual e federal. É no seio dos estudos para construção do Cadastro de Favelas que a noção de aglomerados e complexos de favelas se consolida. | ||
No período de 1980-1983, uma série de ações de urbanização de favelas, dos diversos níveis de governo, são realizadas, como o processo de eletrificação de favelas pela Light e o Proface/CEDAE, cujo objetivo era levar água de modo sistemático e estruturado para as favelas da cidade. O que esses programas têm em comum é o fato de serem setoriais, isto é, referem-se a um tipo de serviço público específico (luz e água, respectivamente), a ser implantado em um grande número de favelas. Mas, há outro tipo de ações concentrados em uma única favela ou conjunto de favelas, como o projeto Mutirão/UNESCO, o Projeto Rio | No período de 1980-1983, uma série de ações de urbanização de favelas, dos diversos níveis de governo, são realizadas, como o processo de eletrificação de favelas pela Light e o Proface/CEDAE, cujo objetivo era levar água de modo sistemático e estruturado para as favelas da cidade. O que esses programas têm em comum é o fato de serem setoriais, isto é, referem-se a um tipo de serviço público específico (luz e água, respectivamente), a ser implantado em um grande número de favelas. Mas, há outro tipo de ações concentrados em uma única favela ou conjunto de favelas, como o projeto Mutirão/UNESCO, o Projeto Rio<ref>Muito já foi produzido sobre o Projeto Rio ao longo dos anos desde sua realização, abordando diversos aspectos, desde a mobilização social desenvolvida no momento de sua implantação até aspectos técnicos do Projeto. A título de aproximação inicial, sugerimos como material de consulta sobre o Projeto Rio, as matérias produzidas pelo Rio on Watch, disponíveis no link: https://rioonwatch.org.br/?p=26789</ref> e o Projeto de Desenvolvimento Social de Favelas do Rio de Janeiro<ref>Sobre o Projeto de Desenvolvimento Social de Favelas do Rio de Janeiro, ver, neste dicionário, o verbete “Pertencimento ao Complexo do Alemão”. </ref>. | ||
O projeto Mutirão foi uma ação realizada através de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) e a UNESCO, realizada na Rocinha e que visava a realização de ações de urbanização na área em regime de ajuda mútua; o Projeto Rio, foi uma grande intervenção na produção de infraestrutura urbana e moradias, levada a cabo pelo Governo Federal na área atualmente conhecida como Complexo do Maré; já o Projeto de Desenvolvimento Social de Favelas do Rio de Janeiro é um grande diagnóstico elaborado pela SMDS, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), sobre as favelas do Jacarezinho e do Complexo do Alemão. É possível ver que a realização das quatro maiores intervenções concentradas em uma favela ou conjunto de favelas na cidade do Rio de Janeiro no início dos anos 1980 se baseou em uma nova hierarquia urbana, impactada pelo desenvolvimento da noção de aglomerado ou complexo de favelas. | O projeto Mutirão foi uma ação realizada através de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) e a UNESCO, realizada na Rocinha e que visava a realização de ações de urbanização na área em regime de ajuda mútua; o Projeto Rio, foi uma grande intervenção na produção de infraestrutura urbana e moradias, levada a cabo pelo Governo Federal na área atualmente conhecida como Complexo do Maré; já o Projeto de Desenvolvimento Social de Favelas do Rio de Janeiro é um grande diagnóstico elaborado pela SMDS, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), sobre as favelas do Jacarezinho e do Complexo do Alemão. É possível ver que a realização das quatro maiores intervenções concentradas em uma favela ou conjunto de favelas na cidade do Rio de Janeiro no início dos anos 1980 se baseou em uma nova hierarquia urbana, impactada pelo desenvolvimento da noção de aglomerado ou complexo de favelas. | ||
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Bem como são múltiplas as definições do Complexo do Alemão, se você pergunta a uma moradora ou morador onde começa e termina o bairro. Há quem diga , por exemplo, que o Morro do Adeus faz parte e outras que o excluem se sua percepção do Alemão; há quem o associe ao Complexo da Penha; e por aí vai. Assim, enquanto nova escala de pertencimento, as pessoas que ali vivem podem ter mais uma referência de lugar para evocar, se lhe for estratégico; em outras palavras, não é que as/os moradoras/es não se identifiquem com o “complexo”, e sim que vão acionar seu pertencimento a ele de acordo com as circunstâncias. | Bem como são múltiplas as definições do Complexo do Alemão, se você pergunta a uma moradora ou morador onde começa e termina o bairro. Há quem diga , por exemplo, que o Morro do Adeus faz parte e outras que o excluem se sua percepção do Alemão; há quem o associe ao Complexo da Penha; e por aí vai. Assim, enquanto nova escala de pertencimento, as pessoas que ali vivem podem ter mais uma referência de lugar para evocar, se lhe for estratégico; em outras palavras, não é que as/os moradoras/es não se identifiquem com o “complexo”, e sim que vão acionar seu pertencimento a ele de acordo com as circunstâncias. | ||
Quando vemos a organização política no Complexo do Alemão nos últimos anos, é possível ver que as associações de moradores criadas na região que veio a ganhar esse nome se referenciam a suas localidades como a Nova Brasília, o Morro do Alemão, a Baiana, Grota entre outras. Diferentemente das novas organizações sociais que vão surgir no fim da década de 1990, com as ONG’s, inicialmente, e, mais recentemente, os coletivos, que vão ter como referência local, o Complexo do Alemão. O que cria uma intricada cartografia política que vai gerar as mais diversas alianças, como, por exemplo, no caso do Juntos pelo Complexo do Alemão | Quando vemos a organização política no Complexo do Alemão nos últimos anos, é possível ver que as associações de moradores criadas na região que veio a ganhar esse nome se referenciam a suas localidades como a Nova Brasília, o Morro do Alemão, a Baiana, Grota entre outras. Diferentemente das novas organizações sociais que vão surgir no fim da década de 1990, com as ONG’s, inicialmente, e, mais recentemente, os coletivos, que vão ter como referência local, o Complexo do Alemão. O que cria uma intricada cartografia política que vai gerar as mais diversas alianças, como, por exemplo, no caso do Juntos pelo Complexo do Alemão<ref>Para versões mais detalhadas desse exemplo, ver, neste dicionário, os verbetes: “pertencimento ao Complexo do Alemão”; “As associações de moradores do Complexo do Alemão” e “Juntos pelo Complexo do Alemão”.</ref>. | ||
Para além da dimensão da ação coletiva, do ponto de vista individual, é possível ver como as pessoas também podem acionar positivamente o Complexo do Alemão em suas iniciativas. Ao longo dos anos mais recentes, é possível ver empreendimentos locais que viram, na existência do “Complexo” uma marca que acionaram em seus negócios, como no caso da agência de turismo “Turismo no Alemão”, a marca de roupas “Complexidade urbana” e mesmo a cerveja “Complexo do Alemão”. | Para além da dimensão da ação coletiva, do ponto de vista individual, é possível ver como as pessoas também podem acionar positivamente o Complexo do Alemão em suas iniciativas. Ao longo dos anos mais recentes, é possível ver empreendimentos locais que viram, na existência do “Complexo” uma marca que acionaram em seus negócios, como no caso da agência de turismo “Turismo no Alemão”, a marca de roupas “Complexidade urbana” e mesmo a cerveja “Complexo do Alemão”. | ||
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Como foi dito no início, não foi o objetivo deste texto oferecer uma explicação final e definitiva para a noção de “complexo” de favelas, mas contribuir para o debate a partir de um trabalho de análise e resgate histórico da produção dessa nova escala espacial na cidade. E assim, como esperamos ter ficado claro, não acabamos com a conversa, pelo contrário, apenas abrimos alguns horizontes de reflexão, que consideram desde as diversas vivências, trajetórias e pertencimentos aos complexos de favelas até investigações e críticas sobre os usos dessas escalas por atores políticos como a imprensa e outros órgãos públicos, como os de segurança; mas, sempre, desviando de certas limitações consolidadas no imaginários sobre as favelas do Rio de Janeiro. . | Como foi dito no início, não foi o objetivo deste texto oferecer uma explicação final e definitiva para a noção de “complexo” de favelas, mas contribuir para o debate a partir de um trabalho de análise e resgate histórico da produção dessa nova escala espacial na cidade. E assim, como esperamos ter ficado claro, não acabamos com a conversa, pelo contrário, apenas abrimos alguns horizontes de reflexão, que consideram desde as diversas vivências, trajetórias e pertencimentos aos complexos de favelas até investigações e críticas sobre os usos dessas escalas por atores políticos como a imprensa e outros órgãos públicos, como os de segurança; mas, sempre, desviando de certas limitações consolidadas no imaginários sobre as favelas do Rio de Janeiro. . | ||
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