Militarização: mudanças entre as edições
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= <span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Conceito</span> = | = <span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Conceito</span> = | ||
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Trata-se de conceito ainda em definição, parte de um importante debate travado politicamente e academicamente. Catherine Lutz ([https://en.wikipedia.org/wiki/Catherine_Lutz https://en.wikipedia.org/wiki/Catherine_Lutz]), por exemplo, define militarização como um processo histórico-social através do qual instituições militares (as Forças Armadas nacionais) contribuíram para moldar a vida humana no planeta, seja através de sua ação seja através da disseminação de visões positivas sobre os militares e o mundo militar. A autora chama ainda atenção para os enormes investimentos públicos feitos nessas instituições que permitiram às Forças Armadas alcançarem essa influência ([https://www.academia.edu/2839719/Militarization https://www.academia.edu/2839719/Militarization]).</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Em sentido similar, mas com algumas divergências, Stephen Graham define militarização como a justificativa moral e ideológica que permite transformar todos os espaços em “campos de batalha”, inclusive as ruas e espaços públicos das cidades dos países centrais que sempre viram a guerra de longe, sendo travada nos países da África, Ásia e América Latina. Para o autor, vivemos em uma época que tem a “guerra como metáfora dominante para descrever a condição constante e irrestrita das sociedades urbanas – em guerra contra as drogas, contra o crime, contra o terror, contra a própria insegurança” e apresenta os espaços urbanos como “locais prosaicos e cotidianos, áreas de circulação e espaços da cidade [que] estão se tornando” palco dessas “guerras” todas. ([https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2016/08/06/Como-o-‘novo-urbanismo-militar’-está-redesenhando-as-grandes-cidades https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2016/08/06/Como-o-%E2%80%98novo-urbanismo-militar%E2%80%99-est%C3%A1-redesenhando-as-grandes-cidades]).</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Já Leite, Rocha, Farias e Carvalho argumentam, na Introdução do livro "Militarização no Rio de Janeiro: da pacificação à intervenção”, que a militarização é uma forma de governo, conforme pensou Foucault em seu debate sobre governamentalidade - uma forma de exercício de poder “que tem como alvo principal a população, como forma mais importante de saber, a economia política, como instrumento técnico essencial, os dispositivos de segurança”<ref>FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos IV. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010, p. 303. </ref> , e que envolve a preeminência da soberania e da disciplina para modelar condutas (e, portanto, não apenas o governo dos outros, mas também o governo de si). Isso significa que o poder não emana apenas das instituições estatais – ainda que seus operadores sejam atores centrais de vários dos processos e situações aqui analisados –, mas pode ser observado circulando em diversos contextos a partir de seus diferentes agentes e funcionários (aqui, o Exército, a Polícia Militar, a Polícia Civil; ali, seus agentes e a burocracia de suas diversas instituições), das igrejas, das ONGs, dos trabalhadores dos programas sociais, do mercado, e muitas vezes do crime.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Muitos outros autores abordam o tema, mas não é possível recuperar todos os debates aqui. Cabe ressaltar por último que, ainda que a militarização não seja um fenômeno recente, suas configurações se modificaram em termos de um aprofundamento desta lógica, especialmente a partir dos ataques às Torres Gêmeas na cidade de Nova Iorque, Estados Unidos, em 09 de Setembro de 2011. Desde então, o país tem disseminado uma doutrina securitária que tem sido chamada de guerra de nova geração, ou Guerra 4.0, onde o "campo de batalha” deixa de ser um espaço rural pouco habitado (como na 2a Guerra Mundial ou nos Conflitos Pós-Coloniais, como a Guerra da Coréia e do Vietnã ou as guerras civis africanas) para ser travada nos espaços das cidades - sejam elas no Sul Global, como Bagdá ou Rio de Janeiro, ou no Norte, como Londres, Nova Iorque, etc. A guerra deixa de ser travada no “campo de batalha” (battlefield) para ser travada potencialmente em qualquer lugar ("espaço de batalha” ou battlespace). Como afirma Graham, a “militarização da sociedade civil é a extensão das ideias militares de rastreamento, identificação e seleção nos espaços e meios de circulação da vida cotidiana.”<ref>GRAHAM, Stephen. Cidades sitiadas: o novo urbanismo militar. São Paulo: Boitempo Editorial, Coleção Estado de Sítio, 2016, p. 24. </ref>. </span></p> | <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Trata-se de conceito ainda em definição, parte de um importante debate travado politicamente e academicamente. Catherine Lutz ([https://en.wikipedia.org/wiki/Catherine_Lutz https://en.wikipedia.org/wiki/Catherine_Lutz]), por exemplo, define militarização como um processo histórico-social através do qual instituições militares (as Forças Armadas nacionais) contribuíram para moldar a vida humana no planeta, seja através de sua ação seja através da disseminação de visões positivas sobre os militares e o mundo militar. A autora chama ainda atenção para os enormes investimentos públicos feitos nessas instituições que permitiram às Forças Armadas alcançarem essa influência ([https://www.academia.edu/2839719/Militarization https://www.academia.edu/2839719/Militarization]).</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Em sentido similar, mas com algumas divergências, Stephen Graham define militarização como a justificativa moral e ideológica que permite transformar todos os espaços em “campos de batalha”, inclusive as ruas e espaços públicos das cidades dos países centrais que sempre viram a guerra de longe, sendo travada nos países da África, Ásia e América Latina. Para o autor, vivemos em uma época que tem a “guerra como metáfora dominante para descrever a condição constante e irrestrita das sociedades urbanas – em guerra contra as drogas, contra o crime, contra o terror, contra a própria insegurança” e apresenta os espaços urbanos como “locais prosaicos e cotidianos, áreas de circulação e espaços da cidade [que] estão se tornando” palco dessas “guerras” todas. ([https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2016/08/06/Como-o-‘novo-urbanismo-militar’-está-redesenhando-as-grandes-cidades https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2016/08/06/Como-o-%E2%80%98novo-urbanismo-militar%E2%80%99-est%C3%A1-redesenhando-as-grandes-cidades]).</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Já Leite, Rocha, Farias e Carvalho argumentam, na Introdução do livro "Militarização no Rio de Janeiro: da pacificação à intervenção”, que a militarização é uma forma de governo, conforme pensou Foucault em seu debate sobre governamentalidade - uma forma de exercício de poder “que tem como alvo principal a população, como forma mais importante de saber, a economia política, como instrumento técnico essencial, os dispositivos de segurança”<ref>FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos IV. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010, p. 303. </ref> , e que envolve a preeminência da soberania e da disciplina para modelar condutas (e, portanto, não apenas o governo dos outros, mas também o governo de si). Isso significa que o poder não emana apenas das instituições estatais – ainda que seus operadores sejam atores centrais de vários dos processos e situações aqui analisados –, mas pode ser observado circulando em diversos contextos a partir de seus diferentes agentes e funcionários (aqui, o Exército, a Polícia Militar, a Polícia Civil; ali, seus agentes e a burocracia de suas diversas instituições), das igrejas, das ONGs, dos trabalhadores dos programas sociais, do mercado, e muitas vezes do crime.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Muitos outros autores abordam o tema, mas não é possível recuperar todos os debates aqui. Cabe ressaltar por último que, ainda que a militarização não seja um fenômeno recente, suas configurações se modificaram em termos de um aprofundamento desta lógica, especialmente a partir dos ataques às Torres Gêmeas na cidade de Nova Iorque, Estados Unidos, em 09 de Setembro de 2011. Desde então, o país tem disseminado uma doutrina securitária que tem sido chamada de guerra de nova geração, ou Guerra 4.0, onde o "campo de batalha” deixa de ser um espaço rural pouco habitado (como na 2a Guerra Mundial ou nos Conflitos Pós-Coloniais, como a Guerra da Coréia e do Vietnã ou as guerras civis africanas) para ser travada nos espaços das cidades - sejam elas no Sul Global, como Bagdá ou Rio de Janeiro, ou no Norte, como Londres, Nova Iorque, etc. A guerra deixa de ser travada no “campo de batalha” (battlefield) para ser travada potencialmente em qualquer lugar ("espaço de batalha” ou battlespace). Como afirma Graham, a “militarização da sociedade civil é a extensão das ideias militares de rastreamento, identificação e seleção nos espaços e meios de circulação da vida cotidiana.”<ref>GRAHAM, Stephen. Cidades sitiadas: o novo urbanismo militar. São Paulo: Boitempo Editorial, Coleção Estado de Sítio, 2016, p. 24. </ref>. </span></p> | ||
= <span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Do que estamos falando quando falamos em militarização?</span> = | |||
*<span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Uso de armas e equipamentos considerados “de guerra” na repressão ao crime e/ou protestos e nos confrontos armados:</span> | *<span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;">Uso de armas e equipamentos considerados “de guerra” na repressão ao crime e/ou protestos e nos confrontos armados:</span> | ||
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos IV. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">GRAHAM, Stephen. Cidades sitiadas: o novo urbanismo militar. São Paulo: Boitempo Editorial, Coleção Estado de Sítio, 2016.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">LEITE, Márcia Pereira. Entre o individualismo e a solidariedade: dilemas da política e da cidadania. REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS (IMPRESSO), São Paulo, v. 15, n.44, p. 73-90, 2000.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">LEITE, Marcia; ROCHA, Lia; FARIAS, Juliana; CARVALHO, Monique. (Org.). Militarização no Rio de Janeiro: da pacificação à intervenção. 1ed.Rio de Janeiro: Mórula, 2018, v. 1.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">Sandra e Masé In: LEITE, Marcia; ROCHA, Lia; FARIAS, Juliana; CARVALHO, Monique (org.). Militarização no Rio de Janeiro: da pacificação à intervenção. 1ed.Rio de Janeiro: Mórula, 2018, v. 1, p. 142-160.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal"><span lang="EN-US">LUTZ, Catherine.“Militarization”. In: 2018 International Encyclopedia of Anthropology. London: Wiley-Blackwell, p. 7008 (2018).</span></span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">MACHADO, Carly; ESPERANCA, V. ; GONCALVES, V. . Militarização e Religião: alianças e controvérsias entre projetos morais de governo de territórios urbanos pacificados. In: LEITE, Marcia; ROCHA, Lia; FARIAS, Juliana; CARVALHO, Monique (org.). Militarização no Rio de Janeiro: da pacificação à intervenção. 1ed.Rio de Janeiro: Mórula, 2018, v. 1, p. 142-160.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">ROCHA, Lia de Mattos. "Democracia e militarização no Rio de Janeiro:“pacificação”, intervenção e seus efeitos no espaço público." In: LEITE, Marcia; ROCHA, Lia; FARIAS, Juliana; CARVALHO, Monique (org.). Militarização no Rio de Janeiro: da “pacificação” à intervenção. Rio de Janeiro: Mórula (2018): 223-239.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> | <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos IV. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">GRAHAM, Stephen. Cidades sitiadas: o novo urbanismo militar. São Paulo: Boitempo Editorial, Coleção Estado de Sítio, 2016.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">LEITE, Márcia Pereira. Entre o individualismo e a solidariedade: dilemas da política e da cidadania. REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS (IMPRESSO), São Paulo, v. 15, n.44, p. 73-90, 2000.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">LEITE, Marcia; ROCHA, Lia; FARIAS, Juliana; CARVALHO, Monique. (Org.). Militarização no Rio de Janeiro: da pacificação à intervenção. 1ed.Rio de Janeiro: Mórula, 2018, v. 1.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">Sandra e Masé In: LEITE, Marcia; ROCHA, Lia; FARIAS, Juliana; CARVALHO, Monique (org.). Militarização no Rio de Janeiro: da pacificação à intervenção. 1ed.Rio de Janeiro: Mórula, 2018, v. 1, p. 142-160.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal"><span lang="EN-US">LUTZ, Catherine.“Militarization”. In: 2018 International Encyclopedia of Anthropology. London: Wiley-Blackwell, p. 7008 (2018).</span></span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">MACHADO, Carly; ESPERANCA, V. ; GONCALVES, V. . Militarização e Religião: alianças e controvérsias entre projetos morais de governo de territórios urbanos pacificados. In: LEITE, Marcia; ROCHA, Lia; FARIAS, Juliana; CARVALHO, Monique (org.). Militarização no Rio de Janeiro: da pacificação à intervenção. 1ed.Rio de Janeiro: Mórula, 2018, v. 1, p. 142-160.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family:Arial,Helvetica,sans-serif;"><span style="font-size:smaller;"><span style="line-height:normal">ROCHA, Lia de Mattos. "Democracia e militarização no Rio de Janeiro:“pacificação”, intervenção e seus efeitos no espaço público." In: LEITE, Marcia; ROCHA, Lia; FARIAS, Juliana; CARVALHO, Monique (org.). Militarização no Rio de Janeiro: da “pacificação” à intervenção. Rio de Janeiro: Mórula (2018): 223-239.</span></span></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> | ||
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