Lu Petersen: mudanças entre as edições

Criou página com 'Conteúdo retirado do livro '''Lu Petersen: militância, favela e urbanismo, '''publicado em 2009 pela Editora FGV'''.''' __FORCETOC__ = Uma ideia fixa: favela = “Uma...'
 
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De 1984 até 1992 atuamos em umas cento e muitas comunidades, com infraestrutura urbana, creches e participação da equipe de educação ambiental em parte dessas comunidades. Reflorestamos áreas desmatadas com cerca de 200 ha plantados em 30 comunidades. Mas em muitas favelas não dava para concluir. Tem mais tempo de continuidade do Mutirão na gestão do prefeito César Maia.
De 1984 até 1992 atuamos em umas cento e muitas comunidades, com infraestrutura urbana, creches e participação da equipe de educação ambiental em parte dessas comunidades. Reflorestamos áreas desmatadas com cerca de 200 ha plantados em 30 comunidades. Mas em muitas favelas não dava para concluir. Tem mais tempo de continuidade do Mutirão na gestão do prefeito César Maia.
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= Favela-Bairro&nbsp; =
= Favela-Bairro&nbsp; =


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'''Vamos falar da sua inserção no projeto Favela-Bairro, e das linhas de continuidade, caso existam, entre o projeto Mutirão e o Favela-Bairro. Mas, antes, gostaríamos de saber sobre o papel de vocês no plano diretor. Vocês definiram diretrizes quanto à questão das favelas?'''
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Sim. Contribuímos durante a realização dos grupos de trabalho, formados a partir de 91, com diretrizes para a urbanização de favelas nas áreas de meio ambiente, saúde e obras com dimensionamentos diferentes da cidade. A prioridade era a intervenção urbanística e social. Remoção só em último caso. Questão profundamente polêmica, inclusive em nível internacional.
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'''Houve embate na prefeitura em torno da ideia da não remoção?'''
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Sim. Porque na prática conseguimos apontar novos caminhos para a solução das ocupações irregulares, tanto as favelas quanto os loteamentos irregulares e clandestinos. Mas houve embates, claro, e não só na prefeitura. O plano diretor foi aberto democraticamente à consulta pública, tanto é que só foi promulgado em 93.
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'''Então o modelo do Favela-Bairro já existia?'''
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Existiam as premissas básicas. Em fins de 92 foi feito um documento, com apoio de dados fornecidos pela equipe e assinado pelo secretário Marco Maranhão, servindo de base para o I Seminário sobre Áreas Favelizadas e Meio Ambiente: Contribuição para uma Proposta de Desenvolvimento Urbano. Fiz uma palestra sobre os projetos de urbanização simplificada em complexos de favelas e formamos grupos temáticos de discussão dos caminhos de intervenções de desenvolvimento urbano, social e prestação de serviços em favelas. Tudo isso veio a contribuir para a proposta do Favela-Bairro. Eu considero, modestamente, que o Mutirão é o DNA do Favela-Bairro. As etapas históricas de implantação do programa Favela-Bairro foram amplamente divulgadas; então vou falar de forma simplificada sobre a mudança de um projeto desenvolvido com características informais para uma nova fase de institucionalização, profissionalização e abrangência no nível da prefeitura. Mesmo porque uma boa parte desse processo já foi relatada em muitas outras publicações.
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'''E como foi a transição para a gestão do Cesar Maia?'''
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A eleição do prefeito Cesar Maia, em 92, foi uma grande novidade. Quando veio o resultado do primeiro turno, daí sim, junto com o Marco Maranhão e nossa equipe, “caímos firme” em uma campanha eleitoral pela primeira vez.&nbsp;Eleito Cesar Maia, a Laura Carneiro foi nomeada secretária da SMDS em 93. Após uma longa reunião de transição, fui exonerada por ela e substituída, assim de cara, pelo novo superintendente, que, ironicamente, tinha o sobrenome Petersen. Puxa, veio gente me perguntar se era meu marido! E lá vou eu, mais uma vez, para a coordenação de planejamento de projetos do Fundo Rio, cujo responsável era o Jorge Rodrigues. Com o apoio da Coordenadoria de Projetos estruturei mais dois projetos com obras de saneamento no Jacarezinho, construídas por empreiteira, e um projeto-piloto, o Programa Especial de Saneamento da Zona Oeste (Peszo), de tratamento de esgotos com filtro anaeróbico nas cinco comunidades da Zona Oeste com Mutirão. Ambos aprovados pelo Ministério da Ação Social. O programa de governo do prefeito já vem apontando para uma reviravolta nas estruturas de gestão municipal macrofuncional, abrindo caminho para um planejamento urbano integrador da cidade. De que eu me lembre, a proposta partia de princípios relativos à necessidade de promover a interação e o entrosamento entre os órgãos públicos do município, a imprescindibilidade de garantir a melhor utilização dos recursos humanos e materiais e maior eficiência na prestação dos serviços. Dentre as diversas macro-funções, duas me chamaram especial atenção: a de desenvolvimento urbano e a de políticas sociais, por motivos óbvios.
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'''E o Geap [Grupo Executivo de Programas Especiais para Assentamentos Urbanos]?'''
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O Geap foi criado por decreto, em 1993, para estabelecer as bases da política habitacional da cidade do Rio de Janeiro. Nunca fomos chamados para participar das reuniões. Não sabíamos o que estava acontecendo. Então eu, enquanto assessora do Fundo Rio, e três coordenadores do Mutirão escrevemos o documento Urbanização de Favela, Participação Popular e Qualidade de Vida, relatando o processo evolutivo do projeto, e enfatizando a necessidade de integrar as políticas públicas direcionadas às favelas. O plano diretor dava um passo importante no sentido dessa integração ao declarar as favelas como “áreas de especial interesse&nbsp;social”. Esse documento foi entregue ao prefeito, em reunião, da qual não participei, com a coordenação do projeto. O objetivo era a defesa do Mutirão, porque entretempo a SMO, ignorando o projeto Mutirão, havia lançado um programa de urbanização de todas as favelas do Rio. Em março de 94 toda a equipe e os projetos do Mutirão, ou seja, todos os conhecimentos adquiridos por nós, são transferidos para a recémcriada Secretaria Extraordinária de Habitação, tendo como responsáveis o secretário e arquiteto Sergio Magalhães e o subsecretário Jorge Rodrigues, que me chamou para a assessoria do gabinete. Estrutura-se a secretaria de acordo com as “bases da política habitacional do Rio de Janeiro”, com seis gerências de programas. O secretário tinha dois candidatos a serem indicados para a gerência do programa Favela-Bairro Popular, que não aceitaram o cargo. Então fui eu a designada para o sacrifício, com apoio do Jorge Rodrigues. Na sala das gerências era tudo colado um no outro. A ponto de um gerente lá, arquiteto jovem recémsaído da faculdade, querer um lugar ao sol na janela só para ele, e eu dei uma bela bronca [risos]. Tomamos posse literalmente de um terraço que servia de área de aeração e insolação dos andares superiores do prédio, e dava acesso para as salas. Posso garantir que ali sim, nasceu o programa Favela-Bairro, ao ar livre, com uma pirâmide de vidro que iluminava os andares inferiores, bem no meio do terraço. Sinal de bons augúrios e transparência, porque as outras salas, inclusive a do secretário, podiam ver! Ali eu fazia reuniões da equipe toda, com comunidades etc.
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'''E as lideranças das comunidades?'''
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Elas reagiam porque tinham interesse em manter as equipes de obras de mutirão... Afinal, para eles era uma questão de poder. E eu pensava: “Vamos ter briga feia aí pela frente com a terceirização de projetos e obras”. Em 94 lança-se o programa Favela-Bairro Popular, com diretrizes bem generalizantes. O sentimento que tivemos foi: está aí só por estar. Então o prefeito lança o decreto de início do Favela-Bairro no complexo do Andaraí, uma encosta íngreme e acidentada com três favelas “conturbadas”, a ser implantado já na estrutura macrofuncional, com&nbsp;a coordenação da Secretaria Extraordinária de Habitação, e gestão integrada com o Iplan, as secretarias de Obras e de Fazenda, e a Procuradoria Geral do Município. Eu pessoalmente teria escolhido alguma área menos complicada. Começamos a ter dificuldades na fase de desenvolvimento dos projetos e obras porque envolviam pareceres técnicos e execução de projetos de diversos serviços da SMO, principalmente. Só que a SMO tinha prioridades mais imediatas... Em dezembro desse mesmo ano a Câmara de Vereadores aprova a oficialização da Secretaria Municipal de Habitação. O prefeito libera, depois, os recursos para a implantação do programa incluindo o Andaraí e mais 16 favelas que viraram 23 em função de outras “conurbações”.
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'''Então o mutirão se transformou no Favela-Bairro?'''
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O Mutirão forneceu os insumos necessários para a estruturação do Favela-Bairro. Eram todas as funções que estavam naquele documento do último seminário: praças, áreas de esporte, iluminação pública, espaços públicos, abertura de vias carroçáveis, coleta de lixo e programas sociais... A equipe técnica foi ocupando espaços em todos os níveis da secretaria.
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'''Mas quem decidiu, por exemplo, quais seriam as 16 favelas contempladas com a verba?'''
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Quem definiu começar pelo Andaraí? Eu não tenho a mínima ideia. Reunimos técnicos da coordenação de projetos e obras e nossos aliados tradicionais. Foi montada a matriz classificatória de favelas coordenada pelo Fernando Cavallieri, que era da Secretaria de Fazenda, definindo o universo das favelas urbanizáveis, estabelecendo os critérios de pontuação para prioridade de inclusão de comunidades.
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'''Então vocês definiram, com autonomia técnica, a maioria dos projetos?'''
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Sim. Naquele momento estruturei uma equipe de 15 subgerentes de projetos, arquitetos e engenheiros, escolhidos a dedo. O secretário propôs uma consulta aos subprefeitos, que indicariam cinco favelas englobando todas as cinco áreas de planejamento da cidade. Nós priorizamos três de cada área. Foi uma ideia bastante democrática e eu achei legal, criativa... E nos garantiu depois apoio das subprefeituras. Foi realizado, então, o concurso da Secretaria de Habitação e do Instituto dos Arquitetos do Brasil para selecionar as metodologias para o Favela-Bairro. Eu participei do julgamento e da escolha das metodologias propostas mais apropriadas. Só uns poucos arquitetos entendiam do assunto. Então juntei os subgerentes para adequarmos o perfil das propostas de cada escritório às características das favelas já escolhidas. Bem, terminado o concurso, começaram as reuniões, com a intermediação do IAB e a participação direta dos escritórios já selecionados, para a definição da estrutura de funcionamento, critérios para a execução e aprovação de projetos etc. Reuniões cansativas que foram encaminhadas por alguns subgerentes e coordenadores. Eu não tinha paciência! Se eu disser que nós teorizamos isso, é mentira. Não tínhamos experiência nos trâmites formais a serem seguidos para aprovação dos projetos. Chega-se finalmente ao escopo do programa: critérios de aprovação de projetos e normas de apresentação de diagnóstico, planos de intervenções e projeto básico. Os nossos técnicos diziam que saíam discussões terríveis! Por iniciativa do Cesar Maia, foi criado o grupo das 16 lideranças. O G-16 foi o mais importante instrumento de socialização dos objetivos, etapas, métodos e repasses para todas as comunidades do programa, sobretudo aquelas que nunca tinham trabalhado conosco. Os planos de intervenção e o início de obras eram sistematicamente difundidos em assembleias locais. Quando começaram as visitas a obras, percebi que o prefeito tinha a percepção clara das vantagens e dificuldades enfrentadas, tomando decisões imediatas na indicação da SMO, por exemplo, para executar complementações importantes na interligação com os bairros com recursos próprios.
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'''As intervenções aconteciam simultaneamente? Ou existia uma sequência?'''
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Estabelecemos um cronograma bem enxuto com o Iplan, que assumiu a gestão administrativa dos projetos, através de reuniões comigo e com o subgerente de cada favela para fecharmos os termos da fiscalização, da aprovação de projetos e da efetivação de pagamentos. Fomos botando na rua na marra... Agora vai! Até porque tínhamos recebido uma provocação, que eu fiquei indignada.
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'''Qual foi?'''
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Convoquei uma reunião geral com os órgãos municipais afins para socializar os conceitos e metodologias do Favela-Bairro. Senti uma certa descrença dos participantes. Vem uma servidora da SME: “Ô Lu, você&nbsp;está maluca? Você não vai conseguir fazer isso nunca!” [risos]. Eu falei: “Nós vamos fazer sim, senhora! Quer apostar?” O comentário geral dos nossos técnicos que estavam presentes: “Chega dessa história de ‘engenheirinho’ de favela, que nós estamos fartos disso”. No final, isso deu gás para a turma!
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'''Quanto tempo dura a intervenção em cada favela?'''
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Depende muito dos graus de dificuldade. Com muito otimismo e boa interação entre os técnicos diversos e a comunidade, leva no mínimo um ano e meio. Mas, na realidade, tivemos que definir etapas de implantação em muitas favelas, porque sempre surgiam dificuldades técnicas e novas necessidades inesperadas.
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'''Em que medida as obras dependiam dessa interação entre técnicos e comunidade?'''
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Dependia da interação de todos os envolvidos. E aí começam as encrencas... Culturas diferentes... É evidente que em área saíam desentendimentos. Era uma confusão! Iniciam-se as licitações de projetos das seis primeiras comunidades e assim por diante, até chegar ao total de 23. Lá vêm novas dificuldades de adaptação, agora com as empreiteiras. Poucas tinham experiência em áreas altamente densas de ocupação desordenada. Tínhamos em área os subgerentes, os nossos fiscais de obras, as agentes comunitárias&nbsp;e as lideranças locais. A SMO nos deu preciosas ajudas. A turma segurando até quando dava; quando não dava, entra dona Lu aí para espanar, porque senão... [risos]. E assim surgiu a minha outra fama: a de “linha dura”. Sobrava também para presidente de associação, traficante... Caramba! Mas também facilitava para o pessoal técnico e para as agentes comunitárias chegarem a acordos com todos os envolvidos. Com a complexidade e diversidade de interesses no programa, estou convencida que não tinha outro jeito. Até hoje vem gente que nem conheço dizer que levou bronca de mim! Dizem que o Favela-Bairro não tem vínculos com a comunidade... É porque não precisa. Já estavam mais do que consolidados ao longo de oito anos.
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'''O BID entra quando?'''
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Naquele momento tínhamos um fortíssimo concorrente, que era o programa Rio Cidade, da SMU. O must da cidade, para a reestruturação dos principais corredores de transporte, ordem urbana com a retirada das barracas de camelôs, chumbadas nas calçadas do Centro, Copacabana, Ipanema, Leblon, Laranjeiras etc., fatos de que poucos se lembram. Nessa época trabalhávamos sem muitos ruídos. As negociações com o BID começam em fins de 94. Em 95 já tínhamos seis obras em andamento, que serviram como exemplo para a definição do escopo do programa. Jose Brakaz, um brasileiro inteligente e competente, funcionário do banco, coordenou uma série de missões. A nossa equipe tinha como coordenador de montagem dos componentes do contrato Fernando Cavallieri, que foi transferido para a SMH, e, como assessor imediato, o engenheiro Aderbal Curvelo, que me havia substituído na Coordenadoria de Planejamento do Mutirão
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'''Mas tem protagonismo seu de bancar uma ideia um tanto extravagante, não é?'''
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Para a época eram ideias extravagantes, mas o fato é que desde o início, em meus primeiros relatórios, eu já afirmava que a estrutura do programa tinha caráter macrofuncional, articulando as intervenções físicas com a diversificação de programa sociais. Os dois teriam que caminhar juntos. Era a metodologia de gestão social do programa. E assim fomos amarrar o escopo do programa com o BID, não sem discussões acaloradas. Era coordenado pela SMH com a coparticipação da SMDS. Eu era a coordenadora dos componentes conceituais e metodológicos, que eram na realidade um dos objetos principais do contrato. Tive que firmar posição quanto a algumas premissas, como a regularização fundiária após as obras, formas indenizatórias para o reassentamento de famílias por necessidades de obras, a construção de edificações habitacionais só em último caso, e outras. Na área social, os acordos foram mais difíceis. O BID insistia só na construção de creches e na troca da gestão participativa da SMDS com a comunidade por ONGs. E nós contrapúnhamos com a importância de diversificar os programas sociais, construir centros comunitários e espaços destinados aos esportes. Nada de ONGs. Foram reuniões muito cansativas e tensas. Mas dava para perceber que a prioridade deles era execução da obra. Prevaleciam os indicadores sociais quantitativos. Finalmente foi aprovado o Programa para Regularização de Assentamentos Populares (Proap Rio/BID) em fins de 1995, incluindo as primeiras 23 favelas e mais 40. Os legados importantíssimos deixados pelo BID para nós foram, de um lado uma estrutura profissional de gestão criada na SMH, com o apoio na contratação de três consultoras que vieram a reforçar a escassez de funcionários para atender às normas do contrato e para arcar com a diversidade de projetos. De outro lado ficou a sistemática de fiscalização de projetos e obras, que se traduziu na construção de um caderno de encargos completíssimo para programas em áreas de pobreza, perfeitamente adaptável aos projetos de desenvolvimento urbano, inclusive em pequenos municípios. No decorrer desses anos houve um desenvolvimento significativo quanto à regularização e titulação da posse da terra. Na secretaria avançam, posteriormente, mais programas importantes. Um deles, que vale destacar, é o programa Morar Legal, de urbanização de loteamentos irregulares e clandestinos, incluído no Proap. A Gerência de Regularização Fundiária viabilizava indenizações e reassentamento de famílias, dando uma solução importantíssima para os programas afins da secretaria. Havia também o Morar Sem Risco, que teve como resultado mais imediato a remoção de todas as famílias que vivam sob os viadutos da cidade, reassentadas em conjuntos habitacionais próximos àquelas áreas. O Novas Alternativas entrou com a restauração de cortiços adaptados para moradia popular e, finalmente, o Morar Carioca, que era de construção e financiamento de habitação popular. Com tudo isso, a SMH se consolida como uma secretaria com grande visibilidade e realizações, com prioridade nítida para as áreas de pobreza. Há que se reconhecer que o secretário Sergio Magalhães foi um gestor eficiente e eficaz.
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'''Quando o projeto passa a ter uma repercussão mais ampla? Inclusive fora do Brasil?'''
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Em 96 o arquiteto Luiz Paulo Conde é eleito prefeito, em função da alta popularidade do Cesar Maia. A SMH passa a adquirir uma certa visibilidade, que se amplia muito com a presença do BID. Com recursos fixados, não havia grandes dificuldades para a adesão de novos órgãos públicos ao Favela-Bairro, exceto a SMU. Muitas entrevistas e programas na mídia dão origem a atividades de coordenação de encontros técnicos, visitas de delegações de várias partes do mundo, coordenadas pela equipe da gerência. A comunicação social passa a ser bem incrementada com recursos alocados para propaganda. Já em 98 é lançado um boletim interno, os Cadernos da SMH, que focalizam os fatos mais importantes da semana. Durante a realização da Conferência da Cimeira,12 nesse mesmo ano, a prefeitura criou um ponto de informações e marketing no MAM, com uma exposição, distribuição de materiais e um vídeo de boa qualidade. Realizamos visitas, com grupos de mais de 100 jornalistas de todo o mundo, ao morro da Serrinha. Alguns grupos prolongavam&nbsp;as visitas se reunindo em bares, com os moradores, organizando pagode até a noite. Depois passamos a organizar visitas turísticas e técnicas no Vidigal, em função da bela vista da Zona Sul. Foram grupos e mais grupos. Aliás, o Vidigal vai ser mais tarde o embrião da ideia do Museu da Providência. Depois eu conto. Em 1997 eu tinha ido fazer o curso de gestão de programas sociais do Instituto de Desenvolvimento e Estudos Sociais do BID. Os professores e alunos simplesmente não davam a mínima para o Favela-Bairro: “Quem é essa brasileira aí?” Era tudo pablito [risos]. Foi um curso extremamente cansativo, que durou um mês, em Washington. A minha relação social com os alunos era ótima porque nos fins de semana nos reuníamos para ouvir música, tomar cerveja e bater papo, dar umas saídas turísticas. Uma vez fomos ver a festa do Halloween. Coisa estranha, aquelas fantasias, que não metiam medo nem em criancinha... Já os diálogos com os professores eram difíceis. Arrumei confusão lá por causa da participação comunitária, porque fui indicada para apresentar uma proposta que, evidentemente, não tinha nada a ver com a tese deles de trabalho voluntário nos fins de semana! Deu encrenca também na montagem do marco lógico de programas. Eu dizia: “Bom, marco lógico você manipula como quiser”.
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'''O que é marco lógico?'''
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Supersimplificando: o marco lógico é uma metodologia que discrimina os componentes para a avaliação e monitoramento de programas através do cruzamento de dados em um sistema matricial para cada instituição envolvida: os objetivos, etapas de implantação, competências, organização de cada tipo de ação, cronogramas físico-financeiros de projetos, acompanhamento e monitoramento das ações. Se você não detiver os dados da realidade concreta, as metas podem ser manipuladas ou estabelecidas de forma inteiramente equivocadas. E mais, eu disse que a metodologia de monitoramento não atendia às necessidades de “sustentabilidade” qualitativa dos projetos sociais. No caso do Favela-Bairro, durante a construção do marco lógico para&nbsp;o primeiro contrato com o BID foi difícil “amarrar” cada item de projetos e obras. Tudo se complicou em relação às políticas sociais porque se referia, além das creches, a programas múltiplos nos centros municipais de atendimento social integrado (Cemasi). Os recursos seriam provenientes da prefeitura, uma vez que a gestão dos projetos sociais em si não estava incluída no contrato. Claro! Para o banco, os componentes do marco lógico eram só quantitativos: que projetos, quantas pessoas beneficiadas etc. Quando o Cesar Maia não vai ao segundo turno das eleições para governador em 98, por coincidência, talvez, o secretário convoca uma reunião geral anunciando novidades na estrutura da SMH, oficializando a participação dos três assessores com o cargo de “facilitadores”. O que me chamou a atenção foi que eles entrevistavam os coordenadores e alguns técnicos. Ficou claro que eu não participava mais da área executiva. Em 99 o sistema matricial descentralizador de tomadas de decisões se revertia para um modelo centralizador que tirava todo o sentido de gerência macrofuncional. O grupo dos 16 passou a ser vinculado diretamente ao gabinete, responsável pela manutenção das obras, e acabou sendo politicamente cooptado. Posteriormente um coordenador me contou que os técnicos eram chamados apenas para consultas técnicas.
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'''O que você fez?'''
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Diante da inevitabilidade de uma campanha eleitoral que começava com muita antecedência, parti para priorizar, a fundo, a conceituação e criação de novas metodologias para as políticas sociais. Eu havia criado uma equipe social, com três assessoras experientes em diversos níveis: a Eliana Sousa e Silva (ex-presidente da AM da Maré), a Maria José Parreiras Xavier (Zeza) e a Sandra Jouan, coordenadora do programa de&nbsp;Saúde Sanitária e Ambiental, criado em 98, que tinha longa experiência conosco. A tese que eu defendia era a de que as lideranças não são forjadas... e muito menos pelo poder público! Trabalhar na consciência real dos indivíduos, ou seja, no atendimento às reivindicações imediatas das comunidades era uma postura que vinha de décadas. Reduzir os efeitos do assistencialismo e clientelismo era a minha meta principal, a partir da ideia de trabalhar na consciência possível de algumas lideranças e grupos de pessoas, que tinham interesses específicos em determinados itens do escopo do programa. Estruturamos um cronograma de workshops técnicos com focos específicos na infraestrutura de saneamento básico e espaços públicos, projetos sociais de creche e centros municipais de atendimento social (Cemasi), esporte e lazer, meio ambiente e urbanismo. Estruturamos o Plano de Ação Social Integrada, o Pasi, incluindo comunidades que entrariam no Proap 2, já que as negociações do contrato tinham iniciado em 98. Era um avanço importante em termos de metodologia macrofuncional de integração social participativa em parceria com as secretarias de Desenvolvimento Social e de Trabalho e Renda, que tinha sido criada no ano anterior. A experiência nas favelas do complexo do Lins, da qual não participei, foi excelente. Posteriormente, em 98, a criação da Coordenadoria de Participação Comunitária e Acompanhamento, institucionalizando a integração social nos programas da SMH, foi um importante reforço para nós. A mobilização de moradores e a interatividade criada nos grupos surpreenderam as minhas assessoras e todos os participantes da secretaria e de outros órgãos municipais. Não tenho certeza, mas acho que em 97 foi lançado o programa Bairrinho, que atendia favelas de 100 a 500 famílias, mas não era eu a gerente. Nesse mesmo ano de 1998, iniciamos a implantação do programa FavelaBairro em grandes favelas, com recursos da Caixa Econômica Federal.
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'''E quais eram as favelas?'''
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Eram as favelas de Rio das Pedras, Rollas e Fazenda Coqueiros, na Zona Oeste. Os recursos eram da Caixa Econômica Federal. Quando conheci o Dietmar Starke, recém-chegado da Alemanha, optei pela contratação dele para subgerente. O Jacarezinho vai ser o projeto-piloto, desenvolvido pelo escritório de arquitetura Artefato, se não me engano, com jovens arquitetos muito sérios. Fizemos duas assembleias, na sede da escola de samba do Jacarezinho, para divulgar o projeto e para a apresentação do plano de intervenções, ambas com a presença da diretoria da associação de moradores e famílias locais da comunidade. Iniciamos também as obras em Rio das Pedras com os escritórios do Paulo Casé e do Jorge Mario Jáuregui. No ano de 2000 eu já era uma referência forte do programa e as coisas&nbsp;se complicaram para o meu lado. Realizando uma visita com a Architectural Association da Universidade de Londres ao morro da Providência, fui contatada pela jornalista Márcia Vieira, da revista Vejinha, para uma reportagem que ficou muito legal, intitulada: “A arquiteta dos morros: quem é a mulher que comanda o Favela-Bairro”. Mas a matéria provocou, evidentemente, um certo mal-estar com o secretário e, quiçá, com o próprio prefeito Conde. Poucos meses depois, em julho, foi plantada uma notinha no jornal O Dia sobre desentendimentos entre a gerente do Favela-Bairro e o secretário da SMH. Claro que tínhamos desentendimentos técnicos e políticos. Eu não estava gostando nada dos rumos do Favela-Bairro, que vinha se transformando em obras de urbanização e arquitetura. Os programas sociais só eram fortalecidos nas inaugurações. Os coordenadores do programa passaram a ser simples informadores de técnicas de projetos e obras. A centralização de decisões se tornara clara como água! Mas tomei uma posição bem diferente das anteriores... Nunca explicitei os desacordos claramente para não prejudicar o programa e a secretaria. Era público e notório que eu apoiaria o Cesar Maia nas eleições para prefeito de 2000. O Luiz Paulo Conde era considerado favoritíssimo na SMH, e havia uma capitalização política do programa Favela-Bairro. Entre ser exonerada como “traidora” e buscar uma solução drástica contra a capitalização política do Favela-Bairro, optei pela segunda e saí candidata a vereadora do PTB, reforçando os vínculos com o Cesar Maia. Eu nunca tinha levado a sério os convites para ser candidata a vereadora na época da SMDS, por não ter o mínimo talento para esse tipo de tarefa. E também não tinha dinheiro para a campanha. Nessa época, sai uma notícia no O Globo, de página inteira, provocativa e sensacionalista: “Mãe do Favela-Bairro se candidata...” Essa matéria vai gerar a celeuma sobre a paternidade do programa. Passei a ser persona non grata na maioria das favelas. Só conseguia entrar nas áreas do Jacarezinho, Rollas e Fazenda Coqueiro, e algumas favelas de Jacarepaguá. E durma-se com um barulho desses!
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'''Como foi a experiência de fazer campanha?'''
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Consegui um panfleto muito bemfeito. O símbolo era uma inofensiva abelhinha... A minha irmã conseguiu uns depoimentos importantes, que resumiam alguns momentos da minha trajetória. Tem depoimento do poeta Ferreira Gullar, da escritora Ana Maria Machado (amiga de primário e ginásio), do cineasta Paulo César Saraceni. O Ruy Castro escreveu um texto sobre a minha participação na origem da bossa nova. A minha equipe de campanha era a Bianca Povoleri, ex-secretária na gerência, e a família dela, que morava na Zona Oeste; minha irmã, o meu filho, e alguns amigos da SMH que me apoiavam na encolha. Eu tinha uma mesinha em frente ao Barril 1800, em Ipanema, onde se reunia um grupo de apoio de amigos da praia. O panfleto atraía muita gente, mas não dava voto. Aconteciam coisas que me assustavam. Como eu já disse, passei a ser impedida de entrar na maioria das favelas que eu conhecia muito bem. Apesar disso, ainda consegui duas áreas onde tinha lideranças de mulheres com quem eu tinha relações de amizade, como a Guará, do morro do Sossego, e a Sandrinha, que era presidente na favela da Grota. Consegui uma casinha de graça, com um amigo, em frente ao morro do Sereno, no complexo do Caricó. Uma noite, apareceu uma turma pressionando o meu amigo e a família, e lá se foi o comitê da Lu do Favela-Bairro. Militância política é uma coisa, porque os fatos bons ou maus são mais ou menos previsíveis. Mas campanha eleitoral é para profissional. Caramba! Eu não entendia nada! Por outro lado foi uma campanha hilária, com “causos do arco da velha”. Concentrei a campanha no Jacarezinho. Nosso grupo era um&nbsp;bando de mulheres que faziam um “auê” danado, e a Zeza — um homossexual que era uma verdadeira mãe para os três filhos. Ela se vestia de mulher, mas não fazia a barba, e a gente tinha que dar duro nela. Quando marquei uma visita do Cesar Maia lá, ela apareceu toda feliz da vida, toda pimpona de cabelo penteado, unhas feitas... uma figura! Um dia fomos para o forró e demos de cara com ela dançando com um velhinho, de rosto colado... Não teve jeito, a gozação foi geral! Como sempre, eu e a “fiel escudeira” Bianca, fomos num forró lá nos cafundós da Zona Oeste. Lá tive eu que dançar a noite inteira. Avisei para a mulher que nos convidou que não tinha dinheiro. Pois não é que ela veio, no final da festa, me pedir para pagar os músicos? Saímos dali de fininho. Por ironias do destino, ninguém pedia obras ou material de construção... Era bujão de gás, panela, um arsenal de coisas... Tem muito mais situações esdrúxulas que nem me lembro mais. Terminada a eleição, com a vitória do Cesar Maia, lá vêm as lideranças: “Lu e Bianca, está tudo liberado... Nunca quisemos prejudicar vocês e... blá-blá-blá”. E assim foi o nosso tempo de campanha nas favelas... É a partir daí que vamos consolidar o projeto Célula Urbana.
</blockquote> <p style="text-align: center;">'''Para saber mais, leia o livro na íntegra!&nbsp;'''</p> 
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